quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
Qual câmera devo comprar?
É incrível a quantidade de gente que aparece aqui perguntando: “Qual câmera devo comprar”? Bom, vamos por partes:
Primeiramente é importantíssimo eu deixar claro que o equipamento não faz de ninguém um bom fotógrafo. O fator “pessoa atrás da câmera” é muito mais importante do que a própria “câmera”.
Também quero deixar claro que sim: equipamentos “melhores” (ou seja, que têm mais qualidade técnica final nas imagens e mais recursos) podem fazer fotos melhores, dependendo do tipo de foto que você quer tirar. Então antes que eu te diga qual câmera comprar, me responda: que fotos você pretende fazer?
Tem um celular com câmera? Esse já está bom para você. Sério! Se você não pretende imprimir então não se preocupe com qualidade técnica. Existem momentos que não precisam de qualidade, precisam simplesmente ser gravados! Além do mais você não vai querer sair para beber com seus amigos e arriscar deixar derramar cerveja em cima de 10 mil reais, né? Se o objetivo é ter lembranças, use o celular.
Vá de compacta. Essas câmeras modernas são realmente fantásticas. Tenho que admitir que muitas delas (notei que principalmente as da Sony) conseguem um resultado fenomenal quando existe luz suficiente. Para fotos de dia, do por do sol no Caribe (ha-há) e até macros elas estão ótimas. Só peca um pouco nas fotos noturnas ou com pouca luz, no geral – mas ainda sim dá para ter fotos bacanas.
Ao comprar veja se você quer bastante “zoom”. Se quiser bastante zoom procure bastante zoom. Mas lembre-se: bastante zoom óptico. “Zoom digital” é a mesma coisa que ampliar no Photoshop: perde a qualidade totalmente. Não se engane. Só considere o Zoom Óptico, ok?
Lembre-se: compactas não deixam você controlar muita coisa, e, mesmo quando deixam, o resultado não fica lá essas coisas. Então só compre uma compacta se seu objetivo é apontar e clicar.
Assim como aqui no Brasil “carro popular” não tem nada de popular (ou o povão todo tem mais de 25 mil para gastar em um automóvel e eu não sei). Então todas as SLRs são caras aqui e todas são usadas por profissionais. A linha chamada “amadora ou semi-profissional” têm câmeras de até 5 mil reais o que faz com que existam profissionais da fotografia usando SLRs consideradas amadoras e existam “entusiastas” usando umas que custam o preço de um carro.
Se o seu objetivo é se profissionalizar saiba que é super normal “começar” (e até “continuar”) com as câmeras mais baratas e as usadas. Quando tiver mais dinheiro compra um equipamento melhor e vai “evoluindo” aos poucos. Tem dinheiro sobrando? Compra a “mais foda do mundo” de uma vez. Não vou ser eu que vai te dizer pra comprar uma mais simples.
A diferença entre as compactas e as SLRs é a troca de lentes, as lentes são muito importantes para a qualidade de uma fotografia, vai por mim. Lentes duram uma vida, câmeras são trocadas sempre que aparece um modelo novo (se houver dim dim pra isso, claro). Então invista nas lentes.
Então agora vamos dividir em “kits investimento”. Quanto dinheiro você quer gastar no equipamento fotográfico?
Vou dar como exemplo câmeras Canon, pois é a marca que trabalho e conheço melhor, mas existem diversas equivalentes. Dá uma pesquisada no DpReview e você encontrará tudo. Ah sim, lembre-se que estou falando do equipamento básico do básico. Além de tudo isso você precisará comprar filtros, cartões de memória, mochilas especiais, tripé…
Idéia 1 – orçamento apertado
Compre uma câmera mais barata nova (como uma Rebel XSI) com uma lente “do kit” (a que vem com a câmera – 18-55mm – ao contrário das más línguas é uma lente bacana, só não tem uma nitidez perfeita). Se tiver um pouquinho mais aproveite para comprar um Flash. Não precisa ser o último modelo. Tendo TTL (que é a “conversa” do flash com a câmera, fazendo medições automaticamente e te livrando de cálculos chatos) está bom.
Nesse caso você também pode tentar comprar uma câmera de uma linha mais “profissional”. No caso da Canon uma acima da Rebel, como a 30d ou 40d. De preferência usadas, as novas ainda estão meio caras.
Vá para a “linha mais profissional”. No caso da Canon seria a própria 30d ou 40d. Aproveite para comprar duas lentes, de mais qualidade: uma mais grande angular e uma mais tele. De preferência cobrindo todas as distâncias focais com as duas. Dificilmente alguém consegue viver só com tele ou só com grande angular. Se não tem grana não queira comprar “a mais fodástica das teles”, ficando sem GA. Mesma coisa do item anterior: compre um flash bacana – não precisa ser o top de linha. Flash não melhora tanto assim para compensar o preço absurdo que eles têm aqui no Brasil. Se a grana estiver tranquila mesmo aproveita e compra mais um Flash. E um Flash Trigger. É um bom começo.
Se tiver mais para investir vá de câmeras mais “top de linha”. Não precisa ser o top de linha da linha mais top. Mas entrar na linha Full Frame já é algo possível. Uma Canon 5d (não o último modelo) já está a bagatela de R$ 4.000. Compre uma dessas usada e já ficará bem feliz! Junto com ela compre lentes que cubram da Grande Angular à Tele, com a qualidade destas dependendo do orçamento exato. Com mais dinheirinho dá para se dar ao luxo de comprar uma FishEye, quem sabe… também já dá para investir no flash mais moderno (embora aqui no Brasil eu ache inútil fazer isso).
Mais que R$ 10.000 você não gasta com esse exemplo
Idéia 4 – quem quer dinheiroooo
Se dinheiro definitivamente não for o seu problema então fique muito feliz (pois você deve estar entre os 2% da população que pode dizer isso no nosso país) e compre todos os últimos modelos. No caso da Canon a top top top 1d (que sozinha vale um carro), todas as lentes da série L, flashes e triggers… enfim. Por que eu vou dar conselho para quem tem tanto dinheiro? Peça pros seus empregados escolherem pra você! kakakaka
Não existe fórmula mágica.
Primeiramente é importantíssimo eu deixar claro que o equipamento não faz de ninguém um bom fotógrafo. O fator “pessoa atrás da câmera” é muito mais importante do que a própria “câmera”.
Também quero deixar claro que sim: equipamentos “melhores” (ou seja, que têm mais qualidade técnica final nas imagens e mais recursos) podem fazer fotos melhores, dependendo do tipo de foto que você quer tirar. Então antes que eu te diga qual câmera comprar, me responda: que fotos você pretende fazer?
Para quem não quer ter controle – “compactas”
Quero fotografar amigos, família e meus pets para enviar por email pra todo mundo e talvez subir no Flickr.Tem um celular com câmera? Esse já está bom para você. Sério! Se você não pretende imprimir então não se preocupe com qualidade técnica. Existem momentos que não precisam de qualidade, precisam simplesmente ser gravados! Além do mais você não vai querer sair para beber com seus amigos e arriscar deixar derramar cerveja em cima de 10 mil reais, né? Se o objetivo é ter lembranças, use o celular.
- Vantagens: super compacto! Além do mais alguns têm MP3, Bluetooth, Wi-fi… alguns até telefonam. Olha que maravilha.
- Desvantagens: qualidade péssima. Fotos ruizinhas de dia e de noite. Mas o suficiente para boas lembranças.
- Preço: por uns 300 reais você consegue um decente. Talvez precise de uns 500 para um com “flash” (na realidade é um led, mas serve) e mais resolução.
- Compre um por R$ 169 (cada dia eles estão mais baratos)
Vá de compacta. Essas câmeras modernas são realmente fantásticas. Tenho que admitir que muitas delas (notei que principalmente as da Sony) conseguem um resultado fenomenal quando existe luz suficiente. Para fotos de dia, do por do sol no Caribe (ha-há) e até macros elas estão ótimas. Só peca um pouco nas fotos noturnas ou com pouca luz, no geral – mas ainda sim dá para ter fotos bacanas.
Ao comprar veja se você quer bastante “zoom”. Se quiser bastante zoom procure bastante zoom. Mas lembre-se: bastante zoom óptico. “Zoom digital” é a mesma coisa que ampliar no Photoshop: perde a qualidade totalmente. Não se engane. Só considere o Zoom Óptico, ok?
Lembre-se: compactas não deixam você controlar muita coisa, e, mesmo quando deixam, o resultado não fica lá essas coisas. Então só compre uma compacta se seu objetivo é apontar e clicar.
- Vantagens: ainda são pequenas para carregar e conseguem imagens de qualidade que podem até ser impressas.
- Desvantagens: a qualidade com pouca luz (ambiente fechado ou noite) é baixa. Você não tem controle sobre ela.
- Preço: com R$ 700 você acha câmeras de qualidade. Dica: fuja das milagrosas tipo “Tekpix”. Compre marcas mais consagradas. Elas não são chamadas “consagradas” à toa.
- Aqui tem uma ótima por apenas R$ 599. Elas também estão cada dia mais baratas!
Para quem quer ter controle – “SLRs”
Quando se trata de SLRs (Single Lens Reflex) sou bem sincera: veja quanto dinheiro você quer gastar no trio Câmera + Lente + Flash e compre o que conseguir com isso. Aqui no Brasil as “linhas” não fazem sentido nenhum. Por exemplo: cada marca tem uma “linha de entrada”. Aquela baratinha que qualquer um compra. Mas aqui no Brasil não é baratinha e não é qualquer um que compra.Assim como aqui no Brasil “carro popular” não tem nada de popular (ou o povão todo tem mais de 25 mil para gastar em um automóvel e eu não sei). Então todas as SLRs são caras aqui e todas são usadas por profissionais. A linha chamada “amadora ou semi-profissional” têm câmeras de até 5 mil reais o que faz com que existam profissionais da fotografia usando SLRs consideradas amadoras e existam “entusiastas” usando umas que custam o preço de um carro.
Se o seu objetivo é se profissionalizar saiba que é super normal “começar” (e até “continuar”) com as câmeras mais baratas e as usadas. Quando tiver mais dinheiro compra um equipamento melhor e vai “evoluindo” aos poucos. Tem dinheiro sobrando? Compra a “mais foda do mundo” de uma vez. Não vou ser eu que vai te dizer pra comprar uma mais simples.
A diferença entre as compactas e as SLRs é a troca de lentes, as lentes são muito importantes para a qualidade de uma fotografia, vai por mim. Lentes duram uma vida, câmeras são trocadas sempre que aparece um modelo novo (se houver dim dim pra isso, claro). Então invista nas lentes.
Então agora vamos dividir em “kits investimento”. Quanto dinheiro você quer gastar no equipamento fotográfico?
Vou dar como exemplo câmeras Canon, pois é a marca que trabalho e conheço melhor, mas existem diversas equivalentes. Dá uma pesquisada no DpReview e você encontrará tudo. Ah sim, lembre-se que estou falando do equipamento básico do básico. Além de tudo isso você precisará comprar filtros, cartões de memória, mochilas especiais, tripé…
Idéia 1 – orçamento apertado
Compre uma câmera mais barata nova (como uma Rebel XSI) com uma lente “do kit” (a que vem com a câmera – 18-55mm – ao contrário das más línguas é uma lente bacana, só não tem uma nitidez perfeita). Se tiver um pouquinho mais aproveite para comprar um Flash. Não precisa ser o último modelo. Tendo TTL (que é a “conversa” do flash com a câmera, fazendo medições automaticamente e te livrando de cálculos chatos) está bom.
Nesse caso você também pode tentar comprar uma câmera de uma linha mais “profissional”. No caso da Canon uma acima da Rebel, como a 30d ou 40d. De preferência usadas, as novas ainda estão meio caras.
- Você vai gastar neste “kit modesto” até de R$ 3.000 com o trio câmera+lente+flash.
Vá para a “linha mais profissional”. No caso da Canon seria a própria 30d ou 40d. Aproveite para comprar duas lentes, de mais qualidade: uma mais grande angular e uma mais tele. De preferência cobrindo todas as distâncias focais com as duas. Dificilmente alguém consegue viver só com tele ou só com grande angular. Se não tem grana não queira comprar “a mais fodástica das teles”, ficando sem GA. Mesma coisa do item anterior: compre um flash bacana – não precisa ser o top de linha. Flash não melhora tanto assim para compensar o preço absurdo que eles têm aqui no Brasil. Se a grana estiver tranquila mesmo aproveita e compra mais um Flash. E um Flash Trigger. É um bom começo.
- Nessa brincadeira você deve gastar no máximo uns R$ 5.000.
Se tiver mais para investir vá de câmeras mais “top de linha”. Não precisa ser o top de linha da linha mais top. Mas entrar na linha Full Frame já é algo possível. Uma Canon 5d (não o último modelo) já está a bagatela de R$ 4.000. Compre uma dessas usada e já ficará bem feliz! Junto com ela compre lentes que cubram da Grande Angular à Tele, com a qualidade destas dependendo do orçamento exato. Com mais dinheirinho dá para se dar ao luxo de comprar uma FishEye, quem sabe… também já dá para investir no flash mais moderno (embora aqui no Brasil eu ache inútil fazer isso).
Mais que R$ 10.000 você não gasta com esse exemplo
Idéia 4 – quem quer dinheiroooo
Se dinheiro definitivamente não for o seu problema então fique muito feliz (pois você deve estar entre os 2% da população que pode dizer isso no nosso país) e compre todos os últimos modelos. No caso da Canon a top top top 1d (que sozinha vale um carro), todas as lentes da série L, flashes e triggers… enfim. Por que eu vou dar conselho para quem tem tanto dinheiro? Peça pros seus empregados escolherem pra você! kakakaka
- Alguém aí tem uns 30.000 para me emprestar para pagar esse “kit rico”? rs…
Por fim, mas não menos importante
Se você quer partir para o profissional compre uma câmera que encaixe no seu orçamento e te permita fazer o que você precisa. Para trabalhar em eventos você precisa de lentes claras e flash. Para trabalhar em estúdio você precisa… adivinha… de um estúdio! Para fotos de paisagem profissionais uma Fisheye é praticamente obrigatória… estude, pesquise e, se possível, teste (pegue emprestada a câmera profissional de um amigo, por alguns minutos mesmo, e veja o que acha).Não existe fórmula mágica.
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
Farkas: "Fotógrafo não tem que escrever nem falar"
Em 2003, durante o programa de treinamento de jornalismo da Folha de S. Paulo, em um exercício de reportagem, tive a oportunidade de escolher alguém para entrevistar. Se não me engano, o tema era um vago “cultura” e eu não perdi a chance: escolhi o fotógrafo húngaro Thomaz Farkas, personagem então de um documentário que Walter Lima Jr. dirigia. Escrevi “húngaro”, mas rapidamente me corrijo; Farkas já é brasileiro há um bocado de tempo: chegou ao Brasil em 1930, aos seis anos de idade.
Nem só por isso ele é muito brasileiro: entre muitas outras coisas dignas de nota, fotografou lindamente o Rio de Janeiro dos anos 40, registrou a construção de Brasília e produziu, entre 64 e 65, o projeto Brasil Verdade, que reuniu quatro documentários em média-metragem com os temas futebol, migração Nordeste-Sudeste, cangaço e Carnaval. As viagens que levaram aos filmes (depois lançados como longa) ficaram conhecidos como “Caravana Farkas”. Não por acaso, o tal filme de Walter Lima Jr. acabou levando o título de "Thomaz Farkas, brasileiro".
A importância – assim como a brasileirice – de Farkas não ficou presa nos registros históricos, assim como ele não se restringiu às linhas retas e traços geométricos de alguns de seus trabalhos clássicos (e sublimes) que fazem com que carregue o título de pioneiro na fotografia moderna brasileira.
Quando conversei com ele, num escritório em Pinheiros (São Paulo), Farkas planejava fazer sua primeira exposição de fotografias coloridas e os focos eram a Amazônia e o Norte-Nordeste brasileiros. As fotos haviam sido feitas em 1975 e ficariam em uma pasta até 2006, quando apareceram finalmente em exposição e em um lindo livro, publicado pela Cosac Naify, sob o título “Notas de viagem”.
Foi ainda na gestação dessa idéia colorida que tive a chance maravilhosa de conhecer esse homem modesto e delicado (fofo mesmo), um verdadeiro artista – que diz não saber se fotografia é arte. Fosse hoje, seis anos mais velha e muitas reflexões sobre o assunto depois, eu colocaria minha mão no ombro dele e diria, encabulada mas firme, que alguns de seus trabalhos me emocionam como um poema de Drummond, e que uma fotografia sempre pode salvar um dia – ou uma vida – e que, se isso não é arte, nada mais poderia ser. (Talvez daqui a alguns anos eu entenda que não é preciso dizer nada.)
Segue a entrevista, exatamente como eu escrevi e gostaria que tivesse sido publicada nos idos de 2003 (não, a Folha, onde trabalhei de 2003 a 2005, não quis.)
+++
Aos 79 anos, o fotógrafo, produtor e diretor húngaro naturalizado brasileiro Thomaz Farkas está organizando o material que poderá fazer parte de sua primeira exposição de fotografias coloridas, com imagens da Amazônia.
Além disso, a carreira de Farkas é tema de um documentário do cineasta Walter Lima Jr., que se encantou com as histórias dos filmes que o fotógrafo produziu no interior do Brasil nos anos 60.
Em entrevista à Folha, Farkas falou sobre a evolução da fotografia e do documentário, o fotojornalismo atual, a fotografia como arte e a relação entre texto e imagem. "Com o texto, dá para imaginar o que o autor escreveu. Na fotografia, já se tem metade da imaginação pronta."
O sr. produziu diversos filmes no interior do Brasil, nos anos 60. Como é agora ser tema de um documentário?
Thomaz Farkas - Fiz documentários sobre como viviam os brasileiros. Assim, o Walter [Lima Jr] quis fazer um filme sobre a minha visão do Brasil e de como eu me sinto aqui. E eu me sinto muito dentro do Brasil.
O sr. voltou a algum dos lugares que visitou durante a "Caravana Farkas"?
Não, mas agora o Walter nos propôs fazer um confronto [entre as duas épocas] e está falando com alguns diretores [que participaram da "caravana"]. Eu gostaria de refazer esse tipo de viagem mostrando como é que as coisas mudaram, fazer uma retroviagem. Vai haver uma discussão sobre isso, ainda não está formalizado. Vai depender do que os diretores vão dizer. Nós fizemos filme em tudo quanto é lugar, do Rio Grande do Sul à Amazônia. Em cada lugar deve ter acontecido algo diferente. Eu gostaria de voltar a lugares parecidos com os que a gente visitou para cheirar o que aconteceu. Vamos ver se dá certo.
Na caravana, como era a relação da equipe com a população, que nunca havia visto uma câmera antes?
Na época que nós trabalhávamos, não tinha esse pessoal de televisão correndo por tudo quanto é canto. Então, a gente tinha um pouco de receio de que a objetiva dirigida para as pessoas fosse uma agressão. Isso é um problema que pode dificultar ou facilitar as coisas. Hoje você vai filmar ou fotografar alguém e as pessoas já sabem o que é uma televisão. Naquela época, a gente tentava se familiarizar com as pessoas antes, para que elas não se sentissem agredidas. Hoje todo mundo se apresenta como ator de televisão.
Para o sr., havia então uma vantagem naquela época?
Antes talvez fosse mais natural e mais sincero, não existia uma impostação. As pessoas não tinham medo de ser filmadas se a gente se aproximasse delas de uma maneira consciente. Hoje a gente chega com a câmera e todo mundo já faz uma pose, porque sabe que vai sair em algum lugar. Isso pode facilitar o trabalho, mas talvez a penetração nas idéias das pessoas fique mais difícil.
As suas fotografias mais conhecidas foram tiradas no Brasil. O sr. chegou a fotografar outros países?
Só em viagens. A última foi para a Suécia, Finlândia, São Petersburgo e Moscou. Nessas viagens eu fotografo muito, mas são coisas que, por enquanto, não fazem parte da minha exposição. São fotografias coloridas.
O sr. nunca expôs fotos coloridas, não é?
Tenho fotografias coloridas da década de 70 que estou começando a selecionar agora, para ver o que dá para fazer. São fotografias da Amazônia, do Rio Negro, de uma viagem que eu fiz com o Vanzolini [Paulo Vanzolini, compositor e zoólogo]. E eu nunca mexi em nada disso, agora é que estou começando a abrir e ver os slides. Tem coisas muito interessantes, vamos ver o que dá para fazer com elas, talvez uma exposição ou um livro.
Qual a diferença entre fotografar em cores e em preto e branco?
Nenhuma, mas na Amazônia tem muita cores. A luz é diferente e isso em preto e branco aparece menos. Para as coisas que acontecem por aqui [no Rio e em São Paulo], o preto e branco é suficiente.
Como o sr. define seu estilo de fotografia?
Eu sou um fotógrafo marginal do ponto de vista econômico. Eu nunca trabalhei em fotografia para ganhar dinheiro. Por outro lado, também não fui um fotógrafo amador. É uma coisa intermediária - é por isso que eu digo que sou marginal.
Seu trabalho pode ser definido como fotografia artística?
Se você considerar a fotografia como uma arte...
O sr. não considera a fotografia uma arte?
Eu não sei se fotografia é arte. Fotografia é outra coisa. Você pode chamar de arte, se quiser. Tem gente que acha que não é, tem gente que acha que é uma arte de segunda. Acho que fotografia é fotografia. É uma coisa tão especial, tão separada, que é diferente
do que se considera, geralmente, arte. A fotografia deu margem a uma porção de coisas, à fotografia abstrata, fotografia jornalística, digital... Mas tudo nasceu na fotografia. A fotografia é um mundo - e um mundo fantástico.
E o cinema? Também faz parte desse mundo?
A fotografia e o cinema são muito irmãos também, embora o cinema tenha muito mais de reportagem. É difícil definir essas relações. Eu aprecio o que eu posso ver. Vamos pegar o exemplo de um longa-metragem, um filme de enredo. Ele conta uma história, mas através da imagem, da visão. Se não fosse assim, seria um livro ou uma reportagem. Tem muitos documentários em que há apenas muitas pessoas falando, falando, falando. Mas eu acho que o documentário deveria ser muito mais imagem do que conversa, porque a fala você pode pôr no jornal, na revista. A fala tem que ser muito importante para que ocupe mais de alguns minutos no documentário. Já o filme de enredo é um teatro fotografado, montado como cinema. Mas a imagem é sempre uma grande parte do cinema. É assim que o cinema se liga à fotografia, através do olhar. Não são parecidos, mas ligados.
Como o sr. vê a evolução da fotografia?
A fotografia vai mudando. Hoje, por exemplo, não se penduram mais quadros; são feitas instalações. Tudo muda, mas tem uma origem. A fotografia está na origem e traz tudo isso que está aí. Existem fotógrafos das tendências mais diversas e incríveis. Euacho essa variedade maravilhosa. Tem o Cássio Vasconcelos, por exemplo, que trabalha com polaroids de São Paulo. Cada um tem sua tendência e uma idéia na cabeça, com qualidades e defeitos.
E o trabalho do Sebastião Salgado? O que o sr. acha das críticas que ele recebe, por fotografar a miséria?
Acho o trabalho dele muito interessante. Ele fotografa temas como os trabalhadores ou os imigrantes, que são aspectos da vida. Assim como fotografou os mais pobres, poderia ter fotografado os mais ricos. Essa é uma questão que não deveria existir, não se pode acusar ele de nada. Ele mostra o que está vendo, uma parcela da população. Nos quatro ou cinco primeiros filmes em que eu trabalhei, também vi muita pobreza. Naquela época a TV Cultura não quis exibir os filmes porque afirmou serem muito miseráveis. Mas não é miséria, é a realidade de um povo em um determinado momento e lugar. O que o Tião Salgado tem é uma visão de fotógrafo que é excepcional. A maneira de ele escolher o momento, a angulação, a iluminação é específica. Nenhum fotógrafo fez trabalhadores como ele. Cada um tem que ter a liberdade de fazer o que quer. E ganhar dinheiro com isso, se puder, é melhor.
No cinema atual existe o que alguns estudiosos chamam de "cosmética da fome", em oposição à "estética da fome" do cinema novo. O que o sr. acha dessa suposta tendência?
Por um sucesso de alguns filmes lá fora, como "Central do Brasil", começou a haver um interesse muito grande [por essa temática]. O Babenco fez o filme dele [Carandiru] também. Mas acho que o começo disso tudo foi um filme muito mais interessante do que esses, que é "Notícias de uma guerra particular" [de Kátia Lund e João Salles, de 1999]. Outro filme interessante é "Ônibus 174" [de José Padilha, do ano passado]. São visões artísticas próprias que deram impacto a esse tipo de cinema lá fora, mas não sei se isso vai resistir muito tempo.
Como surgiu seu interesse pela fotografia?
A minha família tem até hoje muitos profissionais ligados às artes visuais. Tenho um filho arquiteto, que faz design de livros e cartazes, tenho outro que é poeta e fotógrafo, outro que é diretor de fotografia. E a filha deste já está trabalhando em cinema também. O meu avô já tinha loja de fotografia, depois meu pai fundou a Fotoptica aqui. Já são cinco gerações. Todo mundo aqui é ligado com fotografia. Parece que temos isso no sangue.
As suas fotografias têm um lado técnico bem forte, com quadros bem construídos e formas geométricas, mas também têm muita emoção. Como o sr. conjuga esses dois aspectos?
Tem época em que eu vejo mais as construções do que a parte mais evidente. Na construção de Brasília, tinha as duas partes - os operários vivendo a vida deles e a cidade sendo construída, que é geométrico. No Rio de Janeiro, tem o aspecto dos prédios e sua composição geométrica e tem as pessoas que lá vivem.
No momento em que o sr. vai disparar o obturador, o que deseja representar?
A vida das pessoas ou como o grupo de pessoas está interagindo como ator, ou então o panorama genérico, a cidade, os prédios, que é o teatro onde vivem essas pessoas. O que eu procuro registrar são as pessoas, o lugar onde elas vivem e o seu trabalho.
A escritora americana Susan Sontag disse, em uma entrevista recente, que um texto diz mais do que uma fotografia. O sr. concorda?
Com o texto, dá para imaginar o que o autor viu e descreveu. Na fotografia, já se tem metade da imaginação pronta. É muito mais difícil imaginar como as pessoas são observando-se uma fotografia do que em um texto. Na fotografia, você tem uma visão muito mais concreta. O texto promove uma imaginação suplementar.
Mesmo quando é um texto jornalístico?
Sim, porque nunca acreditamos em tudo que o jornalista escreve. Sempre pensamos "será que isso é verdade? Será que não é imaginação? Será que não é propaganda?". Tudo aquilo que é escrito nós analisamos; na fotografia fazemos outro tipo de formulação.
O que o sr. acha da reportagem fotográfica atual?
No jornal sempre tem uma ou duas fotos daquilo que está no texto. É uma ilustração do que está acontecendo. Poucas fotografias realmente interessantes aparecem nos jornais e nas revistas. São poucos os fotógrafos de jornal que têm uma visão mais crítica das coisas. E quando o fotógrafo tem essa visão é muito bacana, a foto ganha do texto.
O sr. acredita que a fotografia tenha uma função social? Como isso se dá?
A fotografia não vai mudar o mundo, mas pode mostrar coisas que as pessoas antigamente não sabiam. Hoje as pessoas sabem muito mais, e isso pode levar a uma consciência maior.
O sr. tem vontade de escrever um livro de memórias?
Não. Acho que o fotógrafo tem que fotografar, não tem que escrever nem falar.
Nem só por isso ele é muito brasileiro: entre muitas outras coisas dignas de nota, fotografou lindamente o Rio de Janeiro dos anos 40, registrou a construção de Brasília e produziu, entre 64 e 65, o projeto Brasil Verdade, que reuniu quatro documentários em média-metragem com os temas futebol, migração Nordeste-Sudeste, cangaço e Carnaval. As viagens que levaram aos filmes (depois lançados como longa) ficaram conhecidos como “Caravana Farkas”. Não por acaso, o tal filme de Walter Lima Jr. acabou levando o título de "Thomaz Farkas, brasileiro".
A importância – assim como a brasileirice – de Farkas não ficou presa nos registros históricos, assim como ele não se restringiu às linhas retas e traços geométricos de alguns de seus trabalhos clássicos (e sublimes) que fazem com que carregue o título de pioneiro na fotografia moderna brasileira.
Quando conversei com ele, num escritório em Pinheiros (São Paulo), Farkas planejava fazer sua primeira exposição de fotografias coloridas e os focos eram a Amazônia e o Norte-Nordeste brasileiros. As fotos haviam sido feitas em 1975 e ficariam em uma pasta até 2006, quando apareceram finalmente em exposição e em um lindo livro, publicado pela Cosac Naify, sob o título “Notas de viagem”.
Foi ainda na gestação dessa idéia colorida que tive a chance maravilhosa de conhecer esse homem modesto e delicado (fofo mesmo), um verdadeiro artista – que diz não saber se fotografia é arte. Fosse hoje, seis anos mais velha e muitas reflexões sobre o assunto depois, eu colocaria minha mão no ombro dele e diria, encabulada mas firme, que alguns de seus trabalhos me emocionam como um poema de Drummond, e que uma fotografia sempre pode salvar um dia – ou uma vida – e que, se isso não é arte, nada mais poderia ser. (Talvez daqui a alguns anos eu entenda que não é preciso dizer nada.)
Segue a entrevista, exatamente como eu escrevi e gostaria que tivesse sido publicada nos idos de 2003 (não, a Folha, onde trabalhei de 2003 a 2005, não quis.)
+++
Aos 79 anos, o fotógrafo, produtor e diretor húngaro naturalizado brasileiro Thomaz Farkas está organizando o material que poderá fazer parte de sua primeira exposição de fotografias coloridas, com imagens da Amazônia.
Além disso, a carreira de Farkas é tema de um documentário do cineasta Walter Lima Jr., que se encantou com as histórias dos filmes que o fotógrafo produziu no interior do Brasil nos anos 60.
Em entrevista à Folha, Farkas falou sobre a evolução da fotografia e do documentário, o fotojornalismo atual, a fotografia como arte e a relação entre texto e imagem. "Com o texto, dá para imaginar o que o autor escreveu. Na fotografia, já se tem metade da imaginação pronta."
O sr. produziu diversos filmes no interior do Brasil, nos anos 60. Como é agora ser tema de um documentário?
Thomaz Farkas - Fiz documentários sobre como viviam os brasileiros. Assim, o Walter [Lima Jr] quis fazer um filme sobre a minha visão do Brasil e de como eu me sinto aqui. E eu me sinto muito dentro do Brasil.
O sr. voltou a algum dos lugares que visitou durante a "Caravana Farkas"?
Não, mas agora o Walter nos propôs fazer um confronto [entre as duas épocas] e está falando com alguns diretores [que participaram da "caravana"]. Eu gostaria de refazer esse tipo de viagem mostrando como é que as coisas mudaram, fazer uma retroviagem. Vai haver uma discussão sobre isso, ainda não está formalizado. Vai depender do que os diretores vão dizer. Nós fizemos filme em tudo quanto é lugar, do Rio Grande do Sul à Amazônia. Em cada lugar deve ter acontecido algo diferente. Eu gostaria de voltar a lugares parecidos com os que a gente visitou para cheirar o que aconteceu. Vamos ver se dá certo.
Na caravana, como era a relação da equipe com a população, que nunca havia visto uma câmera antes?
Na época que nós trabalhávamos, não tinha esse pessoal de televisão correndo por tudo quanto é canto. Então, a gente tinha um pouco de receio de que a objetiva dirigida para as pessoas fosse uma agressão. Isso é um problema que pode dificultar ou facilitar as coisas. Hoje você vai filmar ou fotografar alguém e as pessoas já sabem o que é uma televisão. Naquela época, a gente tentava se familiarizar com as pessoas antes, para que elas não se sentissem agredidas. Hoje todo mundo se apresenta como ator de televisão.
Para o sr., havia então uma vantagem naquela época?
Antes talvez fosse mais natural e mais sincero, não existia uma impostação. As pessoas não tinham medo de ser filmadas se a gente se aproximasse delas de uma maneira consciente. Hoje a gente chega com a câmera e todo mundo já faz uma pose, porque sabe que vai sair em algum lugar. Isso pode facilitar o trabalho, mas talvez a penetração nas idéias das pessoas fique mais difícil.
As suas fotografias mais conhecidas foram tiradas no Brasil. O sr. chegou a fotografar outros países?
Só em viagens. A última foi para a Suécia, Finlândia, São Petersburgo e Moscou. Nessas viagens eu fotografo muito, mas são coisas que, por enquanto, não fazem parte da minha exposição. São fotografias coloridas.
O sr. nunca expôs fotos coloridas, não é?
Tenho fotografias coloridas da década de 70 que estou começando a selecionar agora, para ver o que dá para fazer. São fotografias da Amazônia, do Rio Negro, de uma viagem que eu fiz com o Vanzolini [Paulo Vanzolini, compositor e zoólogo]. E eu nunca mexi em nada disso, agora é que estou começando a abrir e ver os slides. Tem coisas muito interessantes, vamos ver o que dá para fazer com elas, talvez uma exposição ou um livro.
Qual a diferença entre fotografar em cores e em preto e branco?
Nenhuma, mas na Amazônia tem muita cores. A luz é diferente e isso em preto e branco aparece menos. Para as coisas que acontecem por aqui [no Rio e em São Paulo], o preto e branco é suficiente.
Como o sr. define seu estilo de fotografia?
Eu sou um fotógrafo marginal do ponto de vista econômico. Eu nunca trabalhei em fotografia para ganhar dinheiro. Por outro lado, também não fui um fotógrafo amador. É uma coisa intermediária - é por isso que eu digo que sou marginal.
Seu trabalho pode ser definido como fotografia artística?
Se você considerar a fotografia como uma arte...
O sr. não considera a fotografia uma arte?
Eu não sei se fotografia é arte. Fotografia é outra coisa. Você pode chamar de arte, se quiser. Tem gente que acha que não é, tem gente que acha que é uma arte de segunda. Acho que fotografia é fotografia. É uma coisa tão especial, tão separada, que é diferente
do que se considera, geralmente, arte. A fotografia deu margem a uma porção de coisas, à fotografia abstrata, fotografia jornalística, digital... Mas tudo nasceu na fotografia. A fotografia é um mundo - e um mundo fantástico.
E o cinema? Também faz parte desse mundo?
A fotografia e o cinema são muito irmãos também, embora o cinema tenha muito mais de reportagem. É difícil definir essas relações. Eu aprecio o que eu posso ver. Vamos pegar o exemplo de um longa-metragem, um filme de enredo. Ele conta uma história, mas através da imagem, da visão. Se não fosse assim, seria um livro ou uma reportagem. Tem muitos documentários em que há apenas muitas pessoas falando, falando, falando. Mas eu acho que o documentário deveria ser muito mais imagem do que conversa, porque a fala você pode pôr no jornal, na revista. A fala tem que ser muito importante para que ocupe mais de alguns minutos no documentário. Já o filme de enredo é um teatro fotografado, montado como cinema. Mas a imagem é sempre uma grande parte do cinema. É assim que o cinema se liga à fotografia, através do olhar. Não são parecidos, mas ligados.
Como o sr. vê a evolução da fotografia?
A fotografia vai mudando. Hoje, por exemplo, não se penduram mais quadros; são feitas instalações. Tudo muda, mas tem uma origem. A fotografia está na origem e traz tudo isso que está aí. Existem fotógrafos das tendências mais diversas e incríveis. Euacho essa variedade maravilhosa. Tem o Cássio Vasconcelos, por exemplo, que trabalha com polaroids de São Paulo. Cada um tem sua tendência e uma idéia na cabeça, com qualidades e defeitos.
E o trabalho do Sebastião Salgado? O que o sr. acha das críticas que ele recebe, por fotografar a miséria?
Acho o trabalho dele muito interessante. Ele fotografa temas como os trabalhadores ou os imigrantes, que são aspectos da vida. Assim como fotografou os mais pobres, poderia ter fotografado os mais ricos. Essa é uma questão que não deveria existir, não se pode acusar ele de nada. Ele mostra o que está vendo, uma parcela da população. Nos quatro ou cinco primeiros filmes em que eu trabalhei, também vi muita pobreza. Naquela época a TV Cultura não quis exibir os filmes porque afirmou serem muito miseráveis. Mas não é miséria, é a realidade de um povo em um determinado momento e lugar. O que o Tião Salgado tem é uma visão de fotógrafo que é excepcional. A maneira de ele escolher o momento, a angulação, a iluminação é específica. Nenhum fotógrafo fez trabalhadores como ele. Cada um tem que ter a liberdade de fazer o que quer. E ganhar dinheiro com isso, se puder, é melhor.
No cinema atual existe o que alguns estudiosos chamam de "cosmética da fome", em oposição à "estética da fome" do cinema novo. O que o sr. acha dessa suposta tendência?
Por um sucesso de alguns filmes lá fora, como "Central do Brasil", começou a haver um interesse muito grande [por essa temática]. O Babenco fez o filme dele [Carandiru] também. Mas acho que o começo disso tudo foi um filme muito mais interessante do que esses, que é "Notícias de uma guerra particular" [de Kátia Lund e João Salles, de 1999]. Outro filme interessante é "Ônibus 174" [de José Padilha, do ano passado]. São visões artísticas próprias que deram impacto a esse tipo de cinema lá fora, mas não sei se isso vai resistir muito tempo.
Como surgiu seu interesse pela fotografia?
A minha família tem até hoje muitos profissionais ligados às artes visuais. Tenho um filho arquiteto, que faz design de livros e cartazes, tenho outro que é poeta e fotógrafo, outro que é diretor de fotografia. E a filha deste já está trabalhando em cinema também. O meu avô já tinha loja de fotografia, depois meu pai fundou a Fotoptica aqui. Já são cinco gerações. Todo mundo aqui é ligado com fotografia. Parece que temos isso no sangue.
As suas fotografias têm um lado técnico bem forte, com quadros bem construídos e formas geométricas, mas também têm muita emoção. Como o sr. conjuga esses dois aspectos?
Tem época em que eu vejo mais as construções do que a parte mais evidente. Na construção de Brasília, tinha as duas partes - os operários vivendo a vida deles e a cidade sendo construída, que é geométrico. No Rio de Janeiro, tem o aspecto dos prédios e sua composição geométrica e tem as pessoas que lá vivem.
No momento em que o sr. vai disparar o obturador, o que deseja representar?
A vida das pessoas ou como o grupo de pessoas está interagindo como ator, ou então o panorama genérico, a cidade, os prédios, que é o teatro onde vivem essas pessoas. O que eu procuro registrar são as pessoas, o lugar onde elas vivem e o seu trabalho.
A escritora americana Susan Sontag disse, em uma entrevista recente, que um texto diz mais do que uma fotografia. O sr. concorda?
Com o texto, dá para imaginar o que o autor viu e descreveu. Na fotografia, já se tem metade da imaginação pronta. É muito mais difícil imaginar como as pessoas são observando-se uma fotografia do que em um texto. Na fotografia, você tem uma visão muito mais concreta. O texto promove uma imaginação suplementar.
Mesmo quando é um texto jornalístico?
Sim, porque nunca acreditamos em tudo que o jornalista escreve. Sempre pensamos "será que isso é verdade? Será que não é imaginação? Será que não é propaganda?". Tudo aquilo que é escrito nós analisamos; na fotografia fazemos outro tipo de formulação.
O que o sr. acha da reportagem fotográfica atual?
No jornal sempre tem uma ou duas fotos daquilo que está no texto. É uma ilustração do que está acontecendo. Poucas fotografias realmente interessantes aparecem nos jornais e nas revistas. São poucos os fotógrafos de jornal que têm uma visão mais crítica das coisas. E quando o fotógrafo tem essa visão é muito bacana, a foto ganha do texto.
O sr. acredita que a fotografia tenha uma função social? Como isso se dá?
A fotografia não vai mudar o mundo, mas pode mostrar coisas que as pessoas antigamente não sabiam. Hoje as pessoas sabem muito mais, e isso pode levar a uma consciência maior.
O sr. tem vontade de escrever um livro de memórias?
Não. Acho que o fotógrafo tem que fotografar, não tem que escrever nem falar.



